Entrevista com o professor Moisés

Foto MoisésMoisés da Silva Lara é professor no Curso de Química da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC – Joinville). Possui licenciatura e bacharelado em Química pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e, mestrado em Educação em Ciências e Matemática pela UFPR.

Conte-nos um pouco sobre sua história com a Química e também com o Ensino de Química. De maneira geral, qual foi sua trajetória até aqui, professor universitário da UDESC?

O meu interesse pela Química surgiu bem cedo. Desde a infância eu gostava de ler livros de ciências e testar experimentos em casa, mas só no final do Ensino Fundamental que eu consegui distinguir entre as diferentes áreas e percebi que a química era a que me despertava maior interesse, fazendo com que eu me decidisse pelo Curso de Química.

Como a maioria dos estudantes, no início da graduação eu não pensava em ser professor, porque sempre me imaginei dentro de um laboratório de pesquisa. No entanto, tive um professor que sempre falava sobre os seus próprios desafios e conquistas, sugerindo que nós, estudantes de química, pelo menos tivéssemos alguma experiência como professor. Segundo este professor, a experiência de sala de aula possibilitaria grande desenvolvimento humano e de habilidades comunicativas, além de consolidar o aprendizado de conhecimentos específicos do curso.

Influenciado por este professor, no segundo ano da graduação comecei a dar aula de química como professor temporário, em dois colégios públicos na região de Curitiba. Logo no início, enfrentei muitos desafios, principalmente porque não conseguia compreender o motivo pelo qual alguns estudantes não aprendiam e muitos não gostavam de química, por mais que eu me esforçasse para ensinar. Isto me levou a uma busca por novas metodologias e estratégias, em primeiro lugar para conquistar os alunos que não tinham interesse pela disciplina e, depois para melhorar a aprendizagem daqueles que tinham dificuldade. Esse desafio me conquistou porque quanto mais eu estudava e buscava alternativas, mais eu percebia a necessidade de me dedicar ao tema.

Apesar da minha paixão pelo ensino, durante a graduação eu pensava na carreira docente apenas como algo temporário porque, paralelamente, eu comecei a empreender em áreas ligadas à química e à perfumaria, passando por ótimas experiências. Porém, chegou o momento de me inscrever para o mestrado e eu tinha que fazer uma escolha e, acabei optando pela carreira docente porque percebi que esta poderia me proporcionar tantos desafios e conquistas quanto as outras.

Assim que conclui a licenciatura ingressei no mestrado em Ensino de Ciências e algumas semanas após concluir o mestrado, fui aprovado no concurso para professor de Ensino de Química na UDESC, iniciando uma nova fase da minha carreira.

Conte-nos um pouco mais sobre o seu doutorado em andamento e a escolha do tema abordado.

Durante o mestrado desenvolvi uma pesquisa sobre o uso de analogias e metáforas no Ensino de Química, a partir de referenciais da filosofia da linguagem, em especial, a bakhtiniana e a wittgensteiniana. Assim, percebemos que as maiores dificuldades residem na linguagem, por vários motivos. Entre eles, porque muitas vezes os professores e os livros didáticos empregam termos específicos da química, ou então, utilizam palavras comuns, mas que adquirem significado diferente no contexto da química, sem verificar se os estudantes estão compreendendo.

A filosofia da linguagem nos ajudou a perceber que os significados são produzidos pelo contexto, colocando em xeque metodologias que tratam o ensino como memorização de teorias e treinamento para resolução de algoritmos deslocados da sua realidade, tais como fórmulas, classificações e nomenclaturas, por exemplo. Evidentemente, não estamos questionando a importância de tal aprendizado, mas a falta do contexto. Para que o estudante tenha condições de usar seus conhecimentos é necessário que ele aprenda no contexto de uso, daí a necessidade da contextualização e da interdisciplinaridade.

No doutorado eu resolvi continuar na mesma linha de pesquisa do mestrado, mas focando principalmente nas confusões causadas pela má compreensão das funções da linguagem e nas ideias implícitas que fazem com que haja uma certa naturalização nas ações do professor, que o impede de questionar-se porque age assim e se haveria outras alternativas. É o caso, por exemplo, de iniciar as aulas sempre expondo definições de leis e teorias, seguidas de classificações e fórmulas e, só no final apresentar algum exemplo de aplicação. Certamente, há muitas outras abordagens possíveis, mas que não são consideradas por grande parte dos professores.

Denominadas por Wittgenstein de “ilusões da linguagem”, as confusões surgem quando consideramos que toda palavra tem uma função referencial, ou seja, representar algo, como se fosse um “rótulo” para os objetos. No entanto, a linguagem pode ter muitas outras funções, como a função normativa, por exemplo, para explicitar uma regra ou transmitir uma ordem. Quando não nos atentamos para as diferentes funções da linguagem, corremos o risco de assumirmos posições dogmáticas e preconceituosas sobre o ensino e a aprendizagem. Por exemplo: podemos considerar que temos uma “mente” que pensa por nós; que os significados e os conceitos podem ser simplesmente transmitidos; que os estudantes podem descobrir sozinhos os significados e; que o desenvolvimento intelectual depende de “estruturas mentais” biologicamente determinadas ou ainda; podemos ficar reféns de critérios de eficiência, incorrendo numa busca incessante de métodos de “aferição da aprendizagem”, como se fosse possível determinar com exatidão o quanto um estudante aprendeu ou deixou de aprender.

Então, no doutorado estamos pesquisando como as confusões da linguagem afetam o ensino e, como que um conhecimento mais aprofundado da linguagem pode melhorar a formação dos professores e, consequentemente, o Ensino de Química.

Você já desenvolveu projetos da área de Química Forense, temática da presente edição? Conte aos leitores um pouco mais sobre as atividades e como foi a experiência.

Sempre tive muita curiosidade pelas investigações criminais e percebi que nos últimos anos, provavelmente influenciados por seriados televisivos e pela mídia em geral, tem aumentado muito o interesse dos adolescentes pelo tema, o que o torna ideal para o desenvolvimento de atividades contextualizadas e interdisciplinares para o Ensino de Química.

Minha primeira experiência com o tema foi quando era professor do Ensino Médio e desenvolvi uma oficina de aprendizagem sobre Ciências Forenses. Li muito para me familiarizar com técnicas forenses e poder adotar uma visão crítica, analisando os objetivos com que são empregadas, seus riscos potenciais, a legislação vigente e o impacto na sociedade. Então, após definir o tema, tive que decidir as estratégias  e escolher os conteúdos a serem explorados, além de sugerir algumas abordagens para outras disciplinas.

Como estratégia, escolhi o ARG (Alternate Reality Game) que é um jogo que guarda algumas semelhanças com o RPG (Role Playing Game), mas enquanto este é mais ficcional, baseando-se na interpretação de papéis, o ARG alterna a ficção com a realidade. Assim, desenvolvi uma história de ficção policial, envolvendo o sequestro de um embaixador brasileiro no Cazaquistão, que é um país praticamente desconhecido dos brasileiros, mas que tem muitas coisas curiosas para se explorar em algumas disciplinas como geografia e história, por exemplo.

Em linhas gerais, a história narra o sequestro de um embaixador brasileiro ocorrido durante um encontro internacional de comércio e, que passou a ser investigado pela Polícia Federal. Sem permissão para enviar agentes ao país, a Polícia Federal conta com a ajuda de estudantes que estariam em férias no país e assumem o papel de protagonistas da investigação. Durante o jogo, os estudantes recebem informações sobre o caso, tais como a localização de carros que teriam sido usados pelos sequestradores, objetos deixados no carro e em quartos de hotel, relato de testemunhas, ficha criminal de suspeitos e diversas outras, permitindo que eles desenvolvam uma estratégia para descobrir os culpados e libertar a vítima.

Além dos estudantes no papel de investigadores, professores e funcionários do colégio também participam, alguns como testemunhas e informantes, outros como suspeitos de envolvimento com o sequestro. Para cada suspeito é criada uma ficha criminal, contendo foto, impressões digitais e informações sobre o passado criminoso, que em alguns casos é de associação com máfias, grupos terroristas, tráfico de armas e vendas de bebidas adulteradas. Assim como as mensagens recebidas, as fichas criminais também contribuem com a interdisciplinaridade ao se referirem a aspectos da história e da geografia local, incluindo questões políticas e conflitos internacionais que são explorados pelas disciplinas envolvidas.

Em cada fase do jogo os estudantes recebem novas informações sobre o caso e dicas sobre como proceder com a investigação, incluindo um kit para análise de impressões digitais e material didático com noções sobre técnicas de análises forenses e uma abordagem do conteúdo de química, que neste caso é o estudo das reações químicas orgânicas e inorgânicas. Entre as técnicas forenses abordadas estão a datiloscopia, exame de DNA, análises de adulteração de chassis de automóveis, de disparo de arma de fogo, uso de entorpecentes e análise de resíduos de explosivos.

Para os estudantes avançarem no jogo, com o auxílio do professor e do material didático, eles estudam as técnicas de análise e os conteúdos de química envolvidos e, em determinado momento recebem objetos reais para aplicar os conhecimentos na investigação, saindo-se vencedora a equipe que primeiro soluciona o caso.

A aplicação deste ARG na disciplina de química permite o estudo das reações, tanto as orgânicas quanto as inorgânicas e ainda, possibilita revisar o conteúdo de Forças Intermoleculares, ao mesmo tempo em que pode ser explorado pelas demais disciplinas, mostrando a possibilidade de um aprendizado mais atraente e significativo para os estudantes. Os principais desafios para desenvolver um projeto destes, são a disposição do professor para pesquisar e aprender coisas novas e, sabemos que nem todos os professores têm esse tempo ou estão dispostos a isso.

Através do projeto Portal da Química, em parceria com o LAPSI e o projeto Química no Ensino Fundamental, adaptamos este projeto para uma Oficina de Química Forense com duração de três horas. Neste caso, o ARG foi simplificado, explorando apenas a datiloscopia como técnica de análise e focando nos conteúdos de Geometria Molecular, Polaridade e Forças Intermoleculares, além de uma abordagem interdisciplinar que envolvia o estudo das principais glândulas sudoríparas e a composição do suor.

A oficina desenvolvida foi aplicada para alunos do Ensino Médio de uma escola da cidade de Laguna, no Encontro de Extensão, e depois apresentada aqui na UDESC para estudantes de licenciatura, durante a Semana da Química, com o objetivo de apresentar alternativas e inspirar os futuros docentes a trabalharem de forma contextualizada, lúdica e interdisciplinar.

Além da Química Forense, na sua concepção, quais seriam as suas Top-5 temáticas indispensáveis para o trabalho com os alunos a nível médio?

Considero como indispensável que as abordagens sejam sempre contextualizadas e interdisciplinares. Quanto aos temas, é importante que eles sejam investigados junto aos estudantes para que os professores saibam quais são os seus interesses, devendo ser escolhidos de acordo com as possibilidades de exploração dos conteúdos específicos, mas também, de seu potencial reflexivo.

Além das Ciências Forenses, eu apontaria temas como Perfumes, Drogas, Vinho e Cerveja que geralmente fazem grande sucesso, mas no caso destes últimos, eles devem ser muito bem planejados para evitar que se faça apologia ao uso de bebidas alcoólicas e substâncias entorpecentes. Há também temas como Aquecimento Global, Escassez de Água Potável e Energia Sustentável que apresentam muitas possibilidades para exploração, mesmo que já sejam um pouco batidos.

Uma dica para encontrar um bom tema é ficar atento aos noticiários, porque sempre há algo que desperta a atenção dos estudantes, como epidemias, guerras e grandes eventos esportivos. Após descobrir um tema em potencial, o professor deve pesquisar como que a química contribui para o seu estudo e a partir daí selecionar os conteúdos que irá explorar e a relação destes com outras disciplinas e então, definir as estratégias de abordagem.

Você também é uma pessoa que se interessa pela temática de perfumes. Já desenvolveu algo com os estudantes nesse sentido?

Meu interesse pela perfumaria surgiu durante minha fase empreendedora, fazendo com que eu fosse para a França estudar sobre a história e a arte da perfumaria. Quando retornei, percebi que além de explorar comercialmente a perfumaria, este também seria um excelente tema para se ensinar química e, a partir daí comecei a desenvolver alguns projetos.

Em todas as etapas de preparação de um perfume a química está presente, como é o caso do preparo de soluções e diluições, do cálculo de concentrações e do uso de equipamentos para medição de volume e massa, por exemplo. Compreender o funcionamento do olfato e a tenacidade de um perfume exige uma noção sobre a composição química, sobre polaridade de moléculas e massa molar, já que a capacidade de sentirmos os odores está intrinsecamente relacionada ao tipo e ao tamanho das moléculas que chegam até o olfato. Na produção dos óleos essenciais para perfumes, também é necessário o conhecimento de diversas propriedades químicas e físicas envolvidas em processos como a destilação, extração por solvente, cromatografia e enfleurage.

Hoje, a maioria dos perfumes leva em sua composição alguma essência sintética ou artificial. Discutir os impactos dessas substâncias na sociedade, ao meio ambiente e à saúde é muito enriquecedor para o aprendizado, não só das teorias e leis científicas, mas também, da responsabilidade de cada um de nós frente à ciência e aos avanços tecnológicos.

No ano passado, com os extensionistas do Portal da Química, desenvolvemos uma oficina de perfumes que foi apresentada na Semana das Ciências para os estudantes de licenciatura. Neste ano, através do projeto de extensão “Química Itinerante”, estamos preparando os extensionistas para levar esta oficina para o máximo possível de escolas públicas de Joinville, com o objetivo de contribuir com a formação dos estudantes e incentivar o interesse pela química.

Agradecemos a participação do professor Moisés da Silva Lara nesta edição do Jornal Momento Químico e desejamos sucesso na sua nova etapa!


Por Karoline dos Santos Tarnowski
Licencianda em Química na Universidade do Estado de Santa Catarina


Momento Químico. Química Forense (capa). Projeto de Extensão.
UDESC – Joinville – Departamento de Química.
Ano 3, Nº 16. Mar./Abr. 2017. p.1-7
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Um comentário sobre “Entrevista com o professor Moisés

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