O Nobel de Wangari

Em uma pesquisa rápida, você pode acessar todas as ganhadoras do Nobel, desde Marie Curie até as quatro mulheres que ganharam o Nobel no último ano (2020), sendo que duas delas, Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier, ganharam o Nobel de Química e Andrea M. Ghez o de Física. Isso tem um peso muito importante. De todos os cinco prêmios da edição de 2020, em três, há mulheres participantes. A quantidade de mulheres a ganharem o Nobel está aumentando, porém ainda temos uma parcela muito desigual, em comparação à quantidade de homens que já receberam tal honraria. Esse avanço em laureadas, mesmo que muito tardio, já melhora um pouco a perspectiva de que novas mulheres ganhadoras podem inspirar outras mulheres em suas carreiras como cientistas, escritoras e responsáveis por lutas em prol da sociedade.

Entretanto, analisando um pouquinho melhor, agora que temos, talvez, uma leve ruptura na barreira do machismo para este tipo de prêmio, no entanto, podemos ver outras barreiras que ainda estão de pé, que é a cor da pele. Caso você volte para a lista de laureadas, verá que as últimas ganhadoras são maioria branca, assim como as primeiras laureadas ou, ainda, você pode contar nos dedos as mulheres que não são brancas.

Bom, a barreira da cor é uma outra de tantas que devemos romper nos próximos anos, para continuar evoluindo como sociedade e seguir com a equidade e em defesa dos direitos humanos.

Neste contexto queria destacar uma mulher que, dentre as laureadas, foi a primeira mulher negra cientista a ganhar um Nobel, porém ela não ganhou nenhum Nobel de Física, Química ou Medicina e sim, acredito eu, um dos mais nobres, o da Paz.

Wangari Maathai foi uma das primeiras mulheres negras cientistas a ganhar um prêmio Nobel. Antes dela, apenas outra mulher negra ganhou um Nobel, Toni Morrison, laureada com o Nobel de Literatura em 1993. Mas no foquemos em Wangari Maathai.

Maathai nasceu em Nieri, no Quênia, em 1940. Três anos após seu nascimento sua família se mudou para uma fazenda, com donos brancos, na província do Vale do Rift, onde seu pai foi empregado. Entretanto, não havia escolas na região, por isso sua mãe e seus irmãos voltaram a sua cidade natal para conseguirem estudar, com seu pai mandando dinheiro para os estudos (MAATHAI, 2007).

Quando Maathai completou 11 anos de idade entrou para uma escola católica em Nieri, que tinha ligações com missões internacionais. Por tal motivo ela conseguiu aprender inglês, ficando fluente na língua e se envolvendo com as atividades da escola. Durante sua estadia na escola houve alguns conflitos no Quênia, devido à luta da população local contra a colonização britânica que mantinha dominância no país. Após sua formação no ensino médio e com o fim do colonialismo no Quênia, o governo começou a criar programas para expandir a educação do país. Isso possibilitou que os quenianos pudessem estudar fora sendo Wangari uma das escolhidas para estudar em uma universidade americana. Ela se formou em biologia, com especialização em química e conseguiu entrar para a Universidade de Pittsburgh como mestranda, atingindo sua pós-graduação em biologia. Maathai voltou para o Quênia, depois do seu mestrado, entretanto encontrou problemas para obter emprego por ser mulher e por conflitos entre tribos rivais. Sendo pertencente à etnia Quicuio, ainda assim Maathai recebeu uma proposta para assistente de laboratório de veterinária.

Devido aos seus estudos em alemão, ainda em sua graduação em biologia, foi ofertado para Maathai uma oportunidade de doutorado na Alemanha. Ela concluiu o curso e posteriormente, em 1971, conseguiu atingir seu PhD em veterinária, sendo a primeira mulher da África oriental a ter tal título, concedido pela própria Universidade de Nairóbi (MAATHAI, 2007).

Durante o período de 1976 a 1987 Maathai participou do conselho nacional das mulheres do Quênia (NCWK), oportunizando várias ideias para o combate à pobreza, principalmente relacionada às mulheres quenianas. Então em 1977 ela lançou uma organização ambiental chamada The Green Belt Movement – GBM (O movimento do cinturão verde), que proporciona para mulheres uma possibilidade de trabalhar no plantio de árvores de reflorestamento. Esse plantio auxiliou tanto na luta contra o desmatamento no Quênia, contribuindo para uma melhora nas condições da água, moradia e acesso a recursos, como na remuneração das mulheres que fizeram e fazem parte desse trabalho. Com esse movimento, Maathai ajudou mulheres a plantarem mais de 30 milhões de árvores por todo Quênia. Em 1986 o GBM se expandiu e começou a auxiliar outros países, como Tanzânia, Uganda, Malawi etc. (UNCCD, 2011).

Em uma pesquisa rápida, você pode acessar todas as ganhadoras do Nobel, desde Marie Curie até as quatro mulheres que ganharam o Nobel no último ano (2020), sendo que duas delas, Jennifer Doudna e Emmanuelle Charpentier, ganharam o Nobel de Química e Andrea M. Ghez o de Física. Isso tem um peso muito importante. De todos os cinco prêmios da edição de 2020, em três, há mulheres participantes. A quantidade de mulheres a ganharem o Nobel está aumentando, porém ainda temos uma parcela muito desigual, em comparação à quantidade de homens que já receberam tal honraria. Esse avanço em laureadas, mesmo que muito tardio, já melhora um pouco a perspectiva de que novas mulheres ganhadoras podem inspirar outras mulheres em suas carreiras como cientistas, escritoras e responsáveis por lutas em prol da sociedade.

Entretanto, analisando um pouquinho melhor, agora que temos, talvez, uma leve ruptura na barreira do machismo para este tipo de prêmio, no entanto, podemos ver outras barreiras que ainda estão de pé, que é a cor da pele. Caso você volte para a lista de laureadas, verá que as últimas ganhadoras são maioria branca, assim como as primeiras laureadas ou, ainda, você pode contar nos dedos as mulheres que não são brancas.

Bom, a barreira da cor é uma outra de tantas que devemos romper nos próximos anos, para continuar evoluindo como sociedade e seguir com a equidade e em defesa dos direitos humanos.

Neste contexto queria destacar uma mulher que, dentre as laureadas, foi a primeira mulher negra cientista a ganhar um Nobel, porém ela não ganhou nenhum Nobel de Física, Química ou Medicina e sim, acredito eu, um dos mais nobres, o da Paz.

Wangari Maathai foi uma das primeiras mulheres negras cientistas a ganhar um prêmio Nobel. Antes dela, apenas outra mulher negra ganhou um Nobel, Toni Morrison, laureada com o Nobel de Literatura em 1993. Mas no foquemos em Wangari Maathai.

Maathai nasceu em Nieri, no Quênia, em 1940. Três anos após seu nascimento sua família se mudou para uma fazenda, com donos brancos, na província do Vale do Rift, onde seu pai foi empregado. Entretanto, não havia escolas na região, por isso sua mãe e seus irmãos voltaram a sua cidade natal para conseguirem estudar, com seu pai mandando dinheiro para os estudos (MAATHAI, 2007).

Quando Maathai completou 11 anos de idade entrou para uma escola católica em Nieri, que tinha ligações com missões internacionais. Por tal motivo ela conseguiu aprender inglês, ficando fluente na língua e se envolvendo com as atividades da escola. Durante sua estadia na escola houve alguns conflitos no Quênia, devido à luta da população local contra a colonização britânica que mantinha dominância no país. Após sua formação no ensino médio e com o fim do colonialismo no Quênia, o governo começou a criar programas para expandir a educação do país. Isso possibilitou que os quenianos pudessem estudar fora sendo Wangari uma das escolhidas para estudar em uma universidade americana. Ela se formou em biologia, com especialização em química e conseguiu entrar para a Universidade de Pittsburgh como mestranda, atingindo sua pós-graduação em biologia. Maathai voltou para o Quênia, depois do seu mestrado, entretanto encontrou problemas para obter emprego por ser mulher e por conflitos entre tribos rivais. Sendo pertencente à etnia Quicuio, ainda assim Maathai recebeu uma proposta para assistente de laboratório de veterinária.

Devido aos seus estudos em alemão, ainda em sua graduação em biologia, foi ofertado para Maathai uma oportunidade de doutorado na Alemanha. Ela concluiu o curso e posteriormente, em 1971, conseguiu atingir seu PhD em veterinária, sendo a primeira mulher da África oriental a ter tal título, concedido pela própria Universidade de Nairóbi (MAATHAI, 2007).

Durante o período de 1976 a 1987 Maathai participou do conselho nacional das mulheres do Quênia (NCWK), oportunizando várias ideias para o combate à pobreza, principalmente relacionada às mulheres quenianas. Então em 1977 ela lançou uma organização ambiental chamada The Green Belt Movement – GBM (O movimento do cinturão verde), que proporciona para mulheres uma possibilidade de trabalhar no plantio de árvores de reflorestamento. Esse plantio auxiliou tanto na luta contra o desmatamento no Quênia, contribuindo para uma melhora nas condições da água, moradia e acesso a recursos, como na remuneração das mulheres que fizeram e fazem parte desse trabalho. Com esse movimento, Maathai ajudou mulheres a plantarem mais de 30 milhões de árvores por todo Quênia. Em 1986 o GBM se expandiu e começou a auxiliar outros países, como Tanzânia, Uganda, Malawi etc. (UNCCD, 2011).

Em janeiro de 2003 Maathai foi apontada para a posição de ministra adjunta do meio ambiente e recursos naturais do Quênia. Por todos os seus feitos em ajudar as mulheres quenianas, a diplomacia que participou durante sua jornada de formação, além de melhorar muito a vida de muitas mulheres de vários países, ela recebeu o Nobel da Paz em 2004, sendo a primeira mulher negra, cientista, a ganhar um prêmio Nobel (UNCCD, 2011).

Caso você tenha ficado interessado na história de Wangari, ela lançou alguns livros sobre sua vida e trajetória, Unbowed: A Memoir (2008), contando um pouco de sua biografia The Green Belt Movement (2003) que descreve, além de sua biografia, o movimento que ela iniciou.

“Os direitos humanos não são coisas colocadas em cima da mesa para as pessoas desfrutarem. São coisas pelas quais se luta e depois se protege.” MAATHAI, Wagari.


Referências:

MAATHAI, Wangari. Unbowed: A Memoir.Google books. 2007. 2021. Disponível em: https://books.google.com.br/books?id=l2N-0aShSGAC&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 5 de março de 2021.

UNCCD. WANGARI MAATHAI. 2011.. Disponível em: https://web.archive.org/web/20110927152236/http://www.unccd.int/IYDD/documents/iydd_docs/WANGARIMAATHAICV.pdf. Acesso em: 05 de março de 2021.

Outros links Interessantes sobre o tema:

Site do movimento(inglês): https://greenbeltmovement.org/

Sua história pela Deutsche Welle (português):https://www.dw.com/pt-002/wangari-maathai-a-ambientalista-queniana-que-ganhou-o-nobel-da-paz/a-52297058

O discurso de Wangari na premiação do Nobel (inglês): https://www.youtube.com/watch?v=dZap_QlwlKw

Notícia de sua morte no The Gaurdian (inglês) :https://www.theguardian.com/world/2011/sep/26/wangari-maathai-nobel-winner-dies

Seu perfil como Nobel (inglês): https://www.nobelprize.org/prizes/peace/2004/maathai/biographical/

A história de “Estrelas Além do Tempo” na escola

Figura 1 – Cena do filme “Estrelas Além do Tempo”. Fonte: Reprodução/20th Century Fox

Ao pensar sobre mulheres negras na ciência, em um texto sobre ensino, não há como deixar de lembrar da história escrita por Margot Lee Shetterly (2017), que inspirou o filme homônimo “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures, 2016). O livro conta a história de mulheres que trabalhavam como matemáticas na organização que posteriormente se tornou a NASA, conhecidas como “computadores humanos” por desenvolverem cálculos em atividades de lançamento de foguetes e astronautas ao espaço. Dentre elas, muitas eram afro-americanas que viveram na época em que o racismo promovia a nítida segregação racial nos Estados Unidos, no período da corrida espacial pós-Segunda Guerra. 

Apesar de bem qualificadas, essas mulheres negras foram contratadas apenas para suprir a falta da mão de obra na área matemática pela qual a organização estava passando. Isso porque a elas havia majoritariamente a oportunidade para trabalhar como professoras em escolas, sem a possibilidade de ocupar cargos diferenciados ou de destaque que exigiam maiores responsabilidades. “Estrelas Além do Tempo” demonstra a situação da década de 60 nos Estados Unidos, em que essas mulheres negras precisavam estar constantemente provando serem capazes de realizar o trabalho científico e tecnológico que os demais colegas brancos acreditavam serem elas incapazes. Uma das cenas do filme, por exemplo, representa a situação de Mary Jackson (interpretada por Janelle Monáe), que estaria apta a exercer atividades específicas em engenharia, mas que de repente se depara com a impossibilidade pelas novas exigências impostas à sua comunidade.

Por toda sua luta, a história dessas mulheres afro-americanas se mostra como valiosa para diversas discussões no âmbito da Educação Básica acerca da ciência e tecnologia, mas também sobre o período histórico em questão. Por isso, concluímos esse texto com o relato da professora Janaína Alves de Souza, que a utiliza em suas aulas de Ciências e Biologia, a fim de promover discussões pertinentes sobre o fazer científico e tecnológico, de modo a fazer seus estudantes refletirem de modo consciente e inclusivo.

“Eu sempre busco questionar os alunos sobre como eles imaginam as pessoas que fazem a ciência, e questiono usando essas palavras. Em seguida os oriento a desenhar essas pessoas em uma folha, é gritante a quantidade de alunos que desenham homens brancos. Em todos os lugares eles enxergam homens brancos como cientistas e as mulheres apenas como secretárias e assistentes, isto é, nos desenhos animados, filmes, séries etc. Em certa ocasião, eu passei o filme ‘Estrelas além do tempo’ e discutimos sobre as temáticas abordadas no filme, e comparamos com a discussão anterior. Além disso, os alunos pesquisaram sobre cientistas que vão além do padrão, se fantasiaram e apresentaram para a escola na feira de ciências. Foi super legal! Os alunos trouxeram cientistas das mais diversas áreas que os representavam de inúmeras formas, cientistas negros, mulheres, LGBTQI+ etc. Essa construção de cientista homem branco não foi construída do dia para noite, logo, não se espera que seja desconstruída com uma única atividade. Entretanto, se não começarmos da forma como podemos, nunca chegaremos em lugar nenhum.”


(Profª. Ma. Janaína Alves de Souza)

Referências:

ESTRELAS ALÉM DO TEMPO. Direção: Theodore Melfi. Produção: Donna Gigliotti, Peter Chernin, Jenno Topping, Pharrell Williams e Theodore Melfi. Los Angeles: 20th Century Fox, 2016 DVD. (127 min.). Produzido por Fox 2000 Pictures.

SHETTERLY, Margot Lee. Estrelas Além do Tempo. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2017. 352 p.

Entrevista com Bruna Cussô

Imagem 1 – Foto da entrevistada da edição, Bruna Cussô

A entrevista com o/a aluno/a para a edição de Mulheres Negras na Ciência contou com a participação da acadêmica do curso de Licenciatura em Física na UDESC – CCT, Bruna Cussô. Atualmente, a Bruna é bolsista de Iniciação Científica, realizando pesquisas acerca do protagonismo de cientistas negros e negras no campo das Ciências Exatas, com o intuito de produzir materiais didáticos para a aplicação da Lei 10.639/03, que versa sobre a obrigatoriedade do ensino da temática “História e cultura afro-brasileira e africana” na Educação Básica.

  • Conte-nos um pouco mais sobre você, sobre as atividades que você desenvolve na Universidade e as motivações que a levaram a escolher o curso de Licenciatura em Física.

Certo! Muito obrigada pela oportunidade, pelo convite de estar aqui falando sobre esse tema. Eu sou a Bruna, faço Licenciatura em Física na UDESC, não vou falar quando eu entrei (risos), mas eu costumo dizer que eu não escolhi fazer Física meio que a Física me escolheu, porque eu sempre quis fazer Direito. Como a minha mãe se formou em direito e eu acompanhei a trajetória acadêmica dela, eu li os livros dela e me apaixonei por aquilo, sabe?! Eu era engajada naquele meio e até o terceiro ano do Ensino Médio eu prestei vestibular para a UFPR para o curso de Direito. Chegando no final do ano eu já estava fazendo amizade com a professora Carla que foi minha professora de Física no último ano do Ensino Médio. Foi a primeira turma de Ensino Médio que ela pegou, ela tinha acabado de se formar na UDESC. Eu lembro até hoje uma atividade que ela passou em que a gente teve que dar aula (Sala de Aula Invertida) e depois que eu terminei aquela aula ela perguntou: “Bruna, por que você não pensa em fazer Física? Você seria uma ótima professora de Física”. Aquilo foi um choque para mim porque eu nunca tinha pensado na Física com uma forma de profissão ou assim por diante. E foi então que, meio brincando, eu tentei o vestibular da UDESC pelo ENEM, mas não fiquei atenta ao resultado porque afinal de contas eu queria Direito a princípio, né?! E daí como eu não tinha visto o resultado e já tinha passado um tempo, veio outro ano e eu fui fazer um cursinho mais decidida a fazer Física. Eu orei muito, conversei com a minha mãe, com a família e decidi “é eu acho que eu gosto realmente de Física, gosto de Ciência, mas nunca tinha percebido, então eu vou fazer”. Fiz um cursinho de 6 meses, prestei o vestibular específico da UDESC e entrei. Quando eu entrei na UDESC, eu fui ver os resultados passados e soube que eu já tinha passado pelo ENEM na UDESC, mas eu vi que não era meu momento, porque eu não tinha certeza, sabe?! E aí eu passei pelo vestibular da UDESC depois, entrei, gostei e estou até hoje e vejo que realmente era o curso que eu queria, que se encaixava comigo e tenho um amor de trabalhar no futuro.

  • Quantas mulheres negras participaram da sua jornada acadêmica, tanto colegas quanto professoras?

Infelizmente, com muita tristeza, eu digo que nenhuma mulher negra participou da minha vida acadêmica. Nós não temos professoras negras no Departamento de Física e dos outros departamentos que dão aula para a gente também não tem nenhuma professora negra. A gente já tem poucas mulheres, que dirá mulheres negras no departamento. E colegas, também, é um tema meio pesado eu dizer que tenho. Eu sei que quando eu entrei no curso de Física eu era a única aluna negra e durante 2 anos permaneceu assim. Depois entraram mais 2 alunas, mas que vivem em outros círculos de conversa, digamos assim, do que eu, não tenho amizade com essas meninas. Infelizmente, mulheres negras na minha vida acadêmica, não tenho, mas eu tive um professor de Física, o professor André, que eu fiz Física III com ele. Ele se tornou um grande amigo, tenho muito carinho pelo professor André e eu digo que ele é o único professor negro que eu conheço dentro da UDESC. Eu sei que tem outro no departamento da mecânica, mas, em geral, ele é o único que eu conheço realmente que fez parte da minha vida acadêmica.

  • Como que você se sentiu no início da Universidade quando você percebeu que era a única acadêmica negra ali?

Quando eu entrei eu não pensava tanto nisso, porque calouro tem aquele negócio de eu preciso passar na disciplina, eu preciso sobreviver e eu não achava que isso tinha tanta importância para mim, embora eu visse o buraco que havia de não ter nenhum, nem aluno e nem aluna negra junto comigo, né?! A gente sente essa diferença! Mas passado o primeiro semestre em que eu comecei a viver mais a universidade, eu comecei a sentir esse buraco, eu sentia os olhares dos colegas, os comentários que eram feitos, a forma como as pessoas me tratavam e assim por diante, até de as pessoas me pararem no corredor e perguntarem se eu era copeira, se eu sou a tia da limpeza, isso para uma menina de 17-18 anos né?! Eu fui sentindo isso e não foi a coisa mais agradável, mas como qualquer outra pessoa que tem um objetivo a gente aprende a sobreviver apesar dos buracos. Eu, graças a Deus, tenho uma família que sempre me deu muito suporte, trabalhou muito a autoestima, trabalhou muito a questão de as suas habilidades, suas competências devem se sobressair apesar de toda essa realidade. Aprendi a enfrentar esses problemas de cabeça erguida.

  • A que você atribui o pequeno número de pessoas negras no meio acadêmico?

Eu atribuo isso, primeiro que: a população negra em Joinville tem pouco ou se não nenhum acesso a UDESC aqui em Joinville, já que a maior concentração da população negra em Joinville vive na Zona Sul da cidade, onde a Universidade pouco chega até às periferias. Um segundo aspecto: a maioria das mulheres e alunas negras que saem do Ensino Médio não estão pensando em estudar em um primeiro momento porque elas precisam sobreviver. A realidade das nossas mulheres negras no Brasil é que muito cedo elas começam a trabalhar para contribuir com a renda de casa para sobreviver e, normalmente, elas cuidam dos irmãos mais novos. Essa não foi necessariamente a minha realidade, eu sou filha única com mãe e pai sempre trabalhando e ganhando bem em comparação com o resto da população em geral, né?! Mas eu entendo pelos dados e pelos meus colegas de Ensino Médio que essa é uma realidade. Elas vão trabalhar cedo, elas cuidam dos irmãos, ajudam a sobreviver, digamos que estudar é o menor dos problemas ou prioridade para elas. Tem um terceiro aspecto que eu levo em consideração em que é ciência ensinada no Ensino Médio, na maioria das vezes coloca o homem como um protagonista histórico e majoritário e quando uma mulher aparece na História da Ciência fazendo Ciência essa mulher ainda tem cor, é uma mulher branca. Para que fazer física se não é para “gente como nós”, sabe?! Não tem essa representatividade, não existe nenhuma abertura de espaço nem no imaginário. Para tu ver que eu estava no Ensino Médio, era boa de exatas, mas pensava em fazer Direito porque achava que tinha mais espaço lá pra mim, nem imaginava Física como uma carreira em potencial. Então, isso está na cabeça dos alunos, né?! Acho que um último aspecto que a gente deve levar em consideração é que quando uma mulher preta entra em qualquer curso, principalmente em um curso de exatas, ela começa a ser estigmatizada de outras formas. É difícil se manter emocionalmente dentro da Universidade sendo uma das únicas ou se não a única mulher preta ali, porque as portas fecham muito rapidamente, não oferecem bolsas para a gente. Na lista de concorrência para entrevista de pesquisa e assim por diante a gente sempre fica por último, a gente sente no olhar de quem está conversando com a gente, de quem vai trabalhar com a gente a desconfiança, o desmerecer teu conhecimento de achar que você está lá porque você foi empurrada e não porque realmente é inteligente ou que você tem capacidade. Eles não confiam em deixar o material do laboratório nas nossas mãos ou a gente sozinha no laboratório, não permitem que a gente realmente se envolva nas coisas, sempre tem alguém supervisionando. Então, digamos que não é uma coisa fácil, as pedras no caminho são um pouquinho maiores do que as dos outros.

  • Historicamente a Ciência foi constituída em um campo predominantemente masculino no qual a participação feminina era ofuscada. Além disso, o acesso das mulheres à educação e ao conhecimento científico ocorreu de forma tardia. Sendo assim, você considera que a dificuldade de acesso das mulheres negras ao conhecimento científico ao longo dos anos teve relação com questões de gênero e raça?

Sim, com certeza! Enquanto as mulheres brancas estavam lutando pela emancipação em relação aos maridos, pelo direito ao voto e o direito dos direitos trabalhistas, as mulheres pretas já estavam trabalhando há muitos séculos de forma desumana, sem carteira assinada, sem nenhum reconhecimento trabalhista ou nenhum direito trabalhista olhando por elas. Enquanto as mulheres brancas estavam indo para as ruas, as mulheres pretas estavam cuidando dos filhos dessas mulheres brancas, tentando sobreviver mais do que tudo! Observando esse panorama histórico, como pensar em estudar e quem dirá fazer universidade quando você primeiro está tentando colocar comida na mesa da tua família. A gente tem que lembrar que tanto os homens quanto as mulheres negras, que passaram pelo processo de escravização, depois da emancipação com muita dificuldade tiveram acesso à educação, isso de forma muito tardia, digo educação básica, quem dirá ao trabalho, porque os homens tinham mais dificuldade de trabalhar do que as mulheres, porque as mulheres ainda tinham vaga como domésticas nas casas das patroas, mas os homens não porque ninguém queria pagar por eles, as mulheres se tornaram as sustentadoras da casa. Como pensar em faculdade, pensar em Ciência, pensar em qualquer outra coisa quando você primeiro precisava ser considerado como gente, né?! Foi uma coisa difícil de a gente ter hoje, retardou o acesso das mulheres negras dentro da universidade mesmo com as ações afirmativas, com a PEC das domésticas e outros tipos de benefícios sociais que foram instituídos pelo governo. A realidade mudou um pouco, mas ainda assim a gente sente os números mostrando uma desigualdade muito grande. Graças ao movimento negro e à articulação de toda uma intelectualidade negra buscando, reivindicando esses direitos, a gente tem que mais de 50% da população do Brasil é preta ou parda, e dessa população toda, mais de 50% são mulheres. Então, pensando na quantidade de mulheres negras que a gente tem no Brasil, de todas as mulheres de 22 a 40 anos que se formam no Ensino Médio menos de 11% delas estão nas cadeiras universitárias e menos de 7% estão produzindo o material de pesquisa de doutoras ou mestrandas. É um número baixíssimo e que não reflete realmente a realidade populacional no Brasil.

  • Você se inspira em alguma cientista negra brasileira? Qual?

Com certeza eu tenho uma grande inspiração! Eu acredito que quando a gente vai conhecendo os cientistas, conhecendo as grandes personalidades do meio que a gente estuda, a gente vai se sentindo mais acolhida por alguma coisa, por alguma pessoa. No meu caso é a Sônia Guimarães. Sonia Guimarães para quem não conhece foi a primeira mulher negra a tirar o título de doutora em Física no Brasil, isso na década de 60, para a gente ver quanto isso é recente, né?! Ela ainda é viva, graças a Deus por isso, mas o fato de ela estar viva mostra que é muito recente. Ela foi, inclusive, a primeira mulher a ser admitida no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) em uma época em que as mulheres não poderiam nem estudar lá. Ela foi pioneira em muitas coisas e na área da Física ela é uma referência, mulher negra tirando doutorado em Física numa época extremamente conturbada, no período de ditadura etc. Ela trabalha na área de Física e, ainda assim, tira grande parte da experiência dela, que não foi fácil, para incentivar e inspirar meninas negras, jovens e adolescentes a seguirem uma carreira científica. Acredito que ela é um grande espelho!

  • Segundo dados de 2015 apresentados por Lima e colaboradores no artigo intitulado “Participação das mulheres nas ciências e tecnologias: entre espaços ocupados e lacunas”, disponível no link da descrição do nosso podcast, a participação de negros e negras na iniciação científica representa 30% do total, e na área de Física, as bolsas de iniciação científica concedidas para mulheres são minoria. Com base nisso, como você se sente fazendo parte dessa estatística?

Primeiro, eu sinto na pele essas estatísticas! Não tem mais nenhuma preta fazendo pesquisa junto comigo e tem mais duas alunas negras só no meu curso, no curso inteiro de Física. A gente percebe que esses dados são muito realistas. Um segundo ponto, eu também sinto a responsabilidade de fazer parte de pelo menos esses 30% e sinto a responsabilidade de trabalhar para que esses números aumentem, para que a gente não precise mais ficar falando em resgatar o protagonismo negro, mas sim lembrar do legado de cada um deles como se fosse qualquer outro cientista no mundo, né?! Sem peso do sofrimento e da discriminação que todos eles passam, porque existe muita ciência preta, existem muitos cientistas pretos históricos, desde o surgimento do homem na Terra, mas que foram silenciados e apagados, né?! Então, que a gente possa trabalhar e ser um exemplo para aqueles que estão vindo, abrir as portas para aqueles que estão vindo sem maiores sofrimentos.

  • Como nós, enquanto futuras professoras, podemos introduzir essa temática durante as nossas aulas?

A parte da minha pesquisa, eu faço iniciação científica sobre esse tema para resgatar o protagonismo de cientistas negras também sobre a aplicação da Lei 10.639/03, que trata da cultura afro-brasileira dentro da educação. Eu acho que o principal é que o professor deve ter em mente que ele não está apenas cumprindo com um calendário de “Dia da Consciência Negra, vamos trabalhar aqui os bonequinhos, vamos pintar umas galinhas d’angola”, não! É necessário tirar um tempo para pesquisar, conversar com cientistas, com professores negros na área de Ciências, seja Química, Biologia, Física ou Matemática. Existe muito conteúdo, existem muitos cientistas que trabalharam e ainda trabalham nessas áreas. Devemos resgatar essa ciência afro-centrada, digamos assim, para aplicar em sala de aula. Dá para fazer muito projeto temático, dá para fazer muitos trabalhos, incluir dentro do cronograma da disciplina diversos assuntos que inserem isso, eu digo, por exemplo, na minha pesquisa um dos meus projetos temáticos é “Por que quando você estica uma mecha de cabelo cacheado e solta, ele volta para a posição inicial?” É uma coisa que ninguém nunca pensaria, ali eu consigo trabalhar todo um contexto histórico-social da realidade de discriminação do cabelo e da dificuldade que a gente teve ao acesso a produtos próprios para cabelo. Só a partir de 2015 no Brasil a gente foi ter uma linha especializada só em cabelo afro, e ainda é possível trabalhar muita Física, porque esticar uma mecha de cabelo cacheado e soltar parece uma coisa simples, mas quanta Física tem por trás disso, né?! Pensar um pouco mais sobre isso, quantos termos, quanta coisa a gente consegue inserir dentro das nossas aulas que trazem um reconhecimento para parte dos alunos que são negros, também uma conscientização para aqueles que não são e, ainda assim, trabalhar os conteúdos que normalmente os alunos não gostam de forma extremamente divertida.  

  • Você gostaria de deixar uma mensagem para meninas negras que pensam em ingressar em um curso de Ciências Exatas?

Sim, claro! Meninas pretas de todo esse mundão, saibam que ninguém pode tirar o valor de vocês! Vocês são herdeiras de um povo rico em conhecimento científico e tecnológico, e antes mesmo de a Europa ou a Ásia desenvolverem a escrita e a medicina, a África já era o berço de muita intelectualidade. Os primórdios da intelectualidade nasceram na África com o Egito, com Cuchi e assim por diante. Então vocês têm mesmo que se orgulhar das raízes que vocês têm e de toda a resistência e sobrevivência que os nossos ancestrais tiveram. Quando as coisas se tornarem difíceis e o caminho incerto, lembrem-se de que há alguém olhando por vocês, pensem nos que estão vindo atrás de vocês e como nós podemos continuar abrindo os caminhos para conseguir fazer uma real mudança com essa realidade. Sonhem grande, corram atrás disso e as exatas são todas de vocês!

  • Você gostaria de fazer alguma consideração final?

As coisas nunca foram fáceis para ninguém no mundo. Acredito que por mais que os nossos caminhos como povo preto sejam mais pedregosos, digamos assim, do que muitos outros, ainda assim existem irmãos de outras etnias e classes que passam por problemas que os fazem pensar em desistir, né?! Eu gosto também de falar para aqueles que não se identificam com a nossa luta, não pela cor pelo menos, mas que também passam por dificuldades na vida acadêmica, por questão de gênero, questão de classe e afins, a gente tem ainda muitas barreiras para quebrar. Sonhem também, lutem também, busquem apoio dos queridos de vocês. Eu sou cristã, acredito que mais do que tudo a minha força vem do céu e se alguém se identifica com isso, então que Deus fortaleça vocês, que vocês possam sonhar grande e conseguir lutar por isso. Tudo vai dar certo e se não der a gente também continua de pé. O que importa é a gente fazer e não desistir sem tentar primeiro.

  • Para quem quiser entrar em contato com você, como faz?

Eu fujo um pouco de redes sociais, mas eu ainda tenho Instagram. Eu posto alguma coisinha lá de vez em quando. Meu Instagram é @cousseau.bruna e meu e-mail, caso alguém queira entrar em contato, é bruna.cusso@hotmail.com.  

Link do Currículo Lattes da aluna Bruna Cussô: http://lattes.cnpq.br/9575902058510147


Referências:

LIMA, B. S.; BRAGA, M. L. S.; TAVARES, I. Participação das mulheres nas Ciências e Tecnologias: entre espaços ocupados e lacunas. Revista Gênero. v.16, n.1, p. 11 – 31. Niterói, 2015.

Um mundo sem identificador de chamadas – e outras coisas mais

Figura 1 – Shirley Ann Jackson. Fonte: Cristiane Guterres.

Você já se imaginou atendendo seu celular sem saber quem está do outro lado da chamada? Sem saber se aquele telefone tocando irá te levar para uma longa conversa com seu amigo ou familiar ou será apenas um motivo de estresse para fugir das ofertas de telemarketing? Pois então, essa era a realidade de toda a população até poucos anos atrás – e ainda é a de algumas pessoas atualmente. Devemos agradecer a melhoria gerada nos meios de comunicação a uma mulher estadunidense negra, chamada Shirley Ann Jackson , que desenvolveu essa tecnologia há cerca de 50 anos.

Nascida em 1946 em Washington D.C., Shirley Ann Jackson sempre foi uma aluna exemplar, que terminou o ensino médio em 1964 como oradora da turma e na sequência ingressou no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) para estudar física teórica, como uma das poucas pessoas negras num dos maiores institutos de tecnologia do mundo. Concluiu seu bacharelado em 1968 e nesse momento teve uma importante atuação em movimentos sociais, quando auxiliou a organizar um grupo de estudantes negros para ajudá-los financeiramente, aumentando o ingresso desses alunos em cursos de graduação.

Após 5 anos de sua graduação, ela recebeu o título de PhD em Teoria das Partículas Elementares no mesmo instituto de sua graduação, tornando-se assim a primeira mulher negra a obter um doutorado no MIT e a segunda mulher nos EUA a obter um doutorado em Física.

Shirley trabalhou em diversos laboratórios americanos e europeus nos quais seus estudos contribuíram para o desenvolvimento de tecnologias como os identificadores de chamadas, o fax portátil, a chamada em espera, as células solares e a fibra óptica – isso mesmo, se você tem internet de alta velocidade em sua casa hoje, deve muito aos estudos de Shirley Ann Jackson.

Hoje em dia, Shirley é detentora de diversos prêmios na área de ciências, além de dedicar parte de seu tempo à presidência do Instituto Politécnico Rensselaer (RPI) em New York. Dedica-se, também, à questões de cunho social, oferecendo auxílio a colégios que atendem estudantes de baixa renda.

Ao imaginar que décadas atrás uma mulher negra não poderia ter nem propriedades em seu nome – inclusive propriedades intelectuais –, as contribuições de Shirley Ann Jackson foram marcantes e representaram um grande enfrentamento a uma sociedade que até então impunha diversos obstáculos para seu desempenho acadêmico. Ela tornou-se, então, um símbolo da defesa de uma educação igualitária para todos, sem distinções.


Referências:

BBC NEWS. 9 coisas que você provavelmente não sabia que foram inventadas ou descobertas por mulheres. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-41147058. Acesso em: 22 fev. 2021.

MEIRA, Rafaela Choqueti de Camargo. Shirley Ann Jackson. Disponível em: https://www3.unicentro.br/petfisica/2020/06/19/shirley-ann-jackson-1946/. Acesso em: 22 fev. 2021.

Entrevista com a professora Anna Maria Canavarro Benite

A entrevista com o/a professor/a para a edição de Mulheres Negras na Ciência contou com a participação da Prof.ª Anna Maria Canavarro Benite, licenciada em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2005, mestre e doutora em Ciências também pela UFRJ. Atualmente atua como Professora Associada IV da Universidade Federal de Goiás onde coordena o Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão- LPEQI, desde 2006. Além disso, atua na área de Ensino de Química com foco na cultura e história africana no ensino de ciências, ensino de ciências de matriz africana e da diáspora, cibercultura na educação inclusiva, Mulheres Negras nas Ciências e políticas de ações afirmativas. Foi reconhecida diversas vezes pelo seu trabalho. Possui 93 artigos publicados em periódicos especializados e 13 capítulos de livros publicados.

  • Conte-nos sobre a sua trajetória acadêmica e o que fez você escolher a Química como profissão.

A minha trajetória não tem nada de tão especial assim. Ela foi muito parecida com a de muitas meninas da Baixada Fluminense, que é de onde eu vim, que para as quais a escola é o único caminho, então o que eu fui fazendo foi agarrar as possibilidades de estar na escola. A Química chega muito pelo interesse pelos processos de transformação, os processos de transformação em todos os sentidos, processos de transformação social, de transformação a matéria, enfim é por aí que a Química acaba aparecendo.

  • A História da Ciência geralmente é contada tendo o homem branco como o principal responsável pelo seu desenvolvimento e evolução, omitindo a participação e contribuição das mulheres, principalmente das mulheres negras. Sendo assim, como você vê a relação entre o papel coadjuvante imposto por anos às mulheres, principalmente às mulheres negras na Ciência, e a escolha profissional de meninas e mulheres negras?

A Ciência ela é feita por homens e mulheres, mas infelizmente a gente faz Ciência numa sociedade que podemos classificar como sociedade brasileira, ela é racista e é recrudescida pela misoginia, pelo machismo, pelo feminicídio. A Ciência é um microcosmo também da própria sociedade, ela repete os comportamentos da sociedade. É bem verdade também que essa mesma Ciência interdita esses corpos femininos porque assim ela foi moldada, tal como a sociedade que a condiciona. A Ciência, por sua vez, também condicionou o racismo e aí ela reflete diretamente na trajetória de mulheres negras. Quando o racismo sai da condição mítica de “negro não tem alma e por isso pode ser escravizado” para justificativa racional, essa justificativa é instaurada por áreas da Ciência que embasaram a eugenia tal como a Psicologia, a Medicina, o Direito. Enfim, esse é um lugar de enfrentamento e o que me deixa bastante contente é que essa trajetória não é solitária, muitas mulheres, muitas cientistas negras vieram antes de mim e muitas virão depois de mim, e eu aprendo muito com todas elas. A própria LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) no tocante à obrigatoriedade do Ensino de História e Cultura Africana e Afro-brasileira nas escolas, foi modificada por uma relatora que é uma mulher negra, a Prof.ª Petronilha Gonçalves. Essa resistência se dá numa batalha ideológica, histórica e política, mas precisa acontecer também no campo de reafirmação das produções de mulheres negras para que a gente possa incentivar outras meninas às escolhas pelas carreiras de Ciências.

  • A UDESC-CCT oferece opções de curso relacionados às Ciências Exatas, dentre eles os cursos de Licenciatura em Química, em Física e em Matemática. Em alguns de seus trabalhos junto com demais colaboradores, mais especificamente no artigo intitulado “Ensino de Química e a Ciência de Matriz Africana: Uma Discussão Sobre as Propriedades Metálicas”, vocês apresentam propostas de aplicação da Lei 10.639/03, que em linhas gerais torna obrigatório o ensino sobre história e cultura afro-brasileira. Sendo assim, você poderia contar aos nossos ouvintes e aos futuros licenciados da UDESC-CCT um pouco mais sobre essas propostas e de sua importância?

Veja, como a gente estava conversando, a sociedade é excludente! Nós só estamos aqui conversando sobre o papel das mulheres negras porque de fato esse papel é invisibilizado, senão certamente eu estaria conversando com você sobre o que eu produzo. Importa num país como o nosso, que é um país de maioria autodeclarada negra, preta e parda, e sobretudo um país de maioria de mulheres, que a gente incentive as estudantes da sala de aula, pois a Escola Básica também tem cor, a Escola Básica é negra, a Escola Básica Pública, então é importante que a Ciência converse com a maior parte da população brasileira. Se nós observarmos a relação das Ciências e das carreiras de Ciências Exatas e Tecnológicas com as mulheres, sobretudo as mulheres negras, essa é uma relação ínfima, porque as pessoas não se sentem representadas num currículo que é instrumento de poder e que é um currículo contado a partir da história de homens brancos, e por isso é importante falar sobre outras matrizes de produção. Toda a sociedade que se organizou como tal, se organiza por processos de transformação da matéria, isso significa que todas as sociedades produziram processos de transformação Química. Então, a pergunta que a gente deve fazer é “por que os currículos contam para nós a Ciência a partir de contextos somente de homens brancos europeus?”. A Ciência moderna que a gente conhece é uma Ciência muito recente e ela nasce a partir da criação de um estado-nação de direitos, que é o estado colonizador europeu, e da subalternidade que é instaurada a partir da barbárie de países como o nosso, América Latina, Caribe, África. Estamos falando que existe uma lógica de poder mantida pelo currículo e se nós queremos, de fato, ter mais pessoas e respostas mais diversas incluídas no modelo de produção de Ensino de Ciência, é preciso falar sobre outras matrizes de produção. E por que faz todo o sentido falar sobre a matriz africana e da diáspora no Brasil? Porque nós somos o segundo país em maior população negra no mundo, atrás somente da Nigéria que está no continente africano. Então, o que a gente tem feito, né?! A gente acabou de publicar um livro, vocês acham “Roteiros Temáticos da Diáspora” para baixar gratuitamente aí na internet, vocês acham “Trajetórias de descolonização da escola: o enfrentamento do racismo no ensino de Ciências e Tecnologias” também com preço bastante modesto que é um projeto bastante ousado de autoria negra, com uma editoria negra. Vocês acham isso procurando inclusive no site da Editora NandyAla, está aí disponível. Vocês podem também entrar em contato comigo, com o meu grupo de pesquisa que é o Laboratório de Pesquisa em Educação Química e Inclusão (LPEQI). Vocês nos acham na internet e nas redes sociais, mas o que que a gente tem feito? A gente tem ensinado a Química que está lá no currículo escolar, mas a partir de outro contexto. Quando a gente vai falar sobre atomística, por exemplo, ao invés de ensinar a estrutura atômica, como cargas opostas atuam em sistema com estabilidade sem promoção do caos, ao invés de a gente contar isso a partir da história de homens brancos, a gente conta a partir da pesquisa de uma cientista negra brasileira que trabalha com semicondutores. Então é isso que a gente tem feito, temos dado visibilidade às trajetórias de produção de matriz africana e da diáspora para que essa Ciência se pareça um pouco mais com a maior parte da população brasileira e que se pareça no contexto, inclusive, da nossa existência e é isso que a gente tem feito. Por exemplo, neste artigo que você citou, o que a gente fez foi dar algumas possibilidades e, uma das que eu gostaria de destacar, é uma das primeiras navalhas utilizadas para cirurgia de parto é do Sudão e de muitos anos atrás, antes mesmo da navalha conhecida como é hoje a partir da medicina. E essa navalha é Ferro zero. O Ferro disposto na crosta terrestre por ser um ambiente altamente oxidante, está disposto na forma de óxido hidróxido insolúvel, então os nossos antepassados precisaram dominar alguns processos redox para conseguir manipular uma ferramenta a partir da hematita e chegar a Ferro no estado zero. Isso é Química! A gente precisa falar sobre isso! A siderurgia é de fato uma conquista africana e a gente precisa falar sobre isso nas salas de aula e dar exemplos contra esse currículo monocromático e com uma única perspectiva de gênero.

  • Como é o mercado de trabalho na área de Ensino de Ciências no Brasil para mulheres negras? Existe disparidade de renda para essas mulheres? Como reverter este quadro?

As mulheres negras foram e são ainda a base da sociedade brasileira! São as mulheres negras que dão cor aos empregos subalternos, são as mulheres negras que choram a morte dos seus filhos pelo extermínio da juventude negra, são as mulheres negras que passam pelo critério de boa aparência na seleção de entrevista de emprego, então isso reflete também na sua remuneração. As mulheres negras são atravessadas por dois marcadores: o de gênero e o de raça. As mulheres brancas estudam pelo menos 5 anos a mais do que os homens brancos, mas no mercado de trabalho recebem 30% a menos desempenhando a mesma função, e as mulheres negras são as que recebem menos porque elas dão cor à periferia e aos empregos subalternos, e é disso que a gente está falando, de uma distribuição que repete o modelo de sociedade extremamente preconceituosa, sobretudo, se considerar os marcadores de uma mulher negra. Nas Ciências isso não é diferente! O mercado de trabalho é o que distribui renda, então as mulheres são a maioria nas profissões ligadas ao cuidado, nós somos uma gama de enfermeiras, assistentes sociais, de professoras e não por acaso nessas profissões ligadas à manutenção da vida é que se ganha menos, porque o mercado de trabalho distribui renda e nos marca também com expropriação da nossa capacidade laboral. No caso das mulheres negras, esse marcador vem com a expropriação da capacidade laboral, com a expropriação da capacidade inventiva, e com a expropriação da inteligência. O que a gente observa é que mulheres negras estão em número muito baixo no topo da carreira, por exemplo, como pesquisadoras que é na bolsa de produtividade em pesquisa, isso segundo os relatórios do próprio CNPq do ano de 2015 que vocês podem consultar. Então nós somos, as mulheres de uma maneira geral, maioria nas Universidades, mas não somos a maior parte das dirigentes dessa Universidade. Para as mulheres negras, isso se reproduz ainda com requinte de crime perfeito, porque tem um marcador de raça imposto nesse lugar, nós somos menos de 7% das bolsistas em produtividade em pesquisa, isso significa o seguinte: de 14.000 pesquisadoras, 14.000 pesquisadores de bolsista em produtividade, em 2015, 4.000 eram mulheres, e aí que você pega a porcentagem de 7% de 4.000 que você vai saber quantas eram mulheres negras. É um número muito pequeno, mas as interdições se repetem de acordo com os marcadores que a própria sociedade reproduz. Para reverter esse quadro a gente poderia trabalhar com as reservas de vagas nos concursos públicos, as reservas de vagas nos comitês de seleção de projetos de pesquisa, porque esses comitês se reproduzem nessa mesma lógica que eu te falei, são feitos por homens brancos e muitas das vezes as pesquisas que apontam para temáticas como essa da Lei 10.639/03, são consideradas militância e não pesquisa de fato sabe. Por exemplo, lá no nosso laboratório, a gente testou um fruto de uma palmeira bastante utilizada nas religiões de matriz africana, o dendê, e que é sagrado para essas religiões, a gente testou a casca, liofilizou, fez uma polpa com essa casca que é cheia de lignina, então nós testamos a capacidade de adsorção dessa casca para metais pesados nas aulas de Química Geral de primeiro período e a gente viu que tinha uma capacidade muito boa e que a gente podia recuperar metais pesados dessas aulas. Isso implica em uma relação mais respeitosa com a natureza, em uma maneira mais respeitosa de lidar com a produção de Ciência e Tecnologia, enfim, essa é uma maneira de fazer isso! Mas quando a gente mostra que também existe Tecnologia e Ciência sendo produzida a partir desse lugar, de uma Ciência que revoga uma matriz africana e da diáspora, muitas vezes é considerado como militância e não como Ciência, porque os comitês são conservadores tanto quanto a sociedade. Então o que a gente precisa? A gente precisa de uma escuta generosa dos nossos pares, a gente precisa de um trânsito generoso, de parar de ser interrompida nas reuniões de conselho diretor para que as pessoas ouçam o que nós mulheres queremos falar, sobretudo, o que mulheres negras tem para falar, que respeitem a nossa pesquisa, mas também que os comitês tenham reservas de vagas, por que não? O nosso país trabalha com reservas de vagas desde sempre, filhos de fazendeiros tinham suas vagas garantidas nos cursos de veterinária para impulsionar as zonas rurais no Brasil, os filhos de militares têm vagas garantidas em colégios militares, as filhas têm inclusive pensão vitalícia, por que não garantir comitês que sejam sensíveis a reserva de vagas para mulheres. Para garantir paridade de gênero e paridade de raça a gente precisa primeiro ter uma garantia legal, porque isso não vai acontecer pela boa vontade, porque isso significa afetar estruturas de poder e não é um comportamento tosco das pessoas deixarem mulheres negras de fora, é um projeto sutil, refinado e de manutenção de poder.

  • Qual mensagem você gostaria de deixar para meninas e mulheres negras que pensam em ingressar em uma Universidade ou para aquelas que estão prestes a enfrentar o mercado de trabalho?

Eu queria dizer que é importante que a gente crie redes de afeto, redes de colaboração entre nós, sobretudo, que a gente não se contamine por essa sociedade adoecida, que a gente consiga discutir mais sobre isso para ser mais solidária e não repetir comportamentos, para que a gente não se isole e acredite no argumento da meritocracia que desqualifica as nossas presenças dentro desses espaços né?! A meritocracia é uma falácia, então não faz o menor sentido seremos avaliadas iguais aos homens se a gente não tem paridade de distribuição do serviço doméstico, por exemplo. Eu não estou falando nem na maternidade, quando a gente vai ter filhos a gente tem licença maternidade e fica 3 meses sem poder produzir direito porque nós estamos produzindo outra coisa, mas os quesitos de avaliação são contados da mesma forma. Então meritocracia não é um sistema justo, é uma falácia, é um sistema que diz para a gente que a gente não conseguiu avançar por falta de competência, mas não nos mostra que não tem uma divisão de trabalho doméstico igualitariamente, não nos mostra que tem uma divisão das funções de cuidado da sociedade de forma igualitaria. Então eu queria dizer às meninas que não se contaminem por discursos meritocráticos, a gente precisa criar redes de proteção, redes solidárias, quando uma mulher falar, escute! Isso não significa que a gente precisa ser melhor amiga umas das outras, muitas vezes a gente nem concorda, mas vamos ter mais empatia, construir redes independente de raça, nós precisamos estar juntas. É óbvio que nós falamos de lugares diferentes, mulheres brancas e mulheres negras, mas esses marcadores não devem nos afastar numa luta por igualdade de gênero, nós devemos continuar juntas, devemos saber exatamente quem nós somos para poder falar de um lugar comum que nos coloque dentro desses espaços com um pouco mais de harmonia que seja. Eu assisto todos os dias situações extremamente desrespeitosas com mulheres dentro do espaço acadêmico, mas, não só no espaço acadêmico, isso acontece em todas as instâncias da sociedade e a gente só vai melhorar isso quando a gente conseguir pelo menos acolher, nós mulheres. Então eu diria para as meninas que vem por aí assim: infelizmente eu não posso dizer para vocês que lugar da gente é onde a gente quiser, porque quem decide quem vai ter direitos é um Estado, um Estado arbitrário que controla a nossa reprodução, um Estado que nos controla. Veja, até agora a gente está votando se homens que cometem feminicídio podem usar o argumento de defesa da moral para poder escapar de julgamento, então eu não posso dizer que a gente vai poder alcançar o que a gente quiser, porque isso não é verdade, mas eu posso dizer que juntas a gente consegue se apoiar a ir bem mais longe do que estes lugares na subalternidade que foram projetados para nós.

  • Qual consideração final você gostaria de fazer?

Eu queria fazer um pedido a vocês que divulguem um projeto que a gente coordena que é o “Investiga Menina”, divulguem os nossos canais porque nesse projeto a gente trabalha na escola pública de periferia aqui do Estado de Goiás, que é o Centro-Oeste do Brasil, um lugar extremamente machista do agronegócio, vocês devem saber. Nós trabalhamos com o incentivo de meninas, sobretudo meninas negras, às escolhas de carreiras de Ciências Exatas e Tecnológicas. Nesse projeto a gente faz vídeos divulgando carreiras de pesquisadoras negras da contemporaneidade, então eu queria muito que vocês entrassem lá, curtissem, acompanhassem os canais, porque depois do golpe da Dilma as pautas, a nossa pauta de direitos humanos foi esvaziada e o nosso financiamento ficou cada vez mais difícil, então quando vocês entram, acompanham vocês nos ajudam a resistir. Então eu gostaria muito que vocês entrassem, divulgassem, entrassem em contato, lessem. Como é que a gente muda a história? Se apoiando! Então eu leio a Lara (entrevistadora), eu cito a Lara nas minhas pesquisas, ela me lê, ela me cita, isso é uma rede de colaboração, é uma rede de manutenção da nossa existência. Eu convido uma mulher para minha banca, eu cito uma mulher, eu estou lá na disciplina de Química Inorgânica e eu pergunto ao professor ou a professora “qual é o livro de mulher que você adotou?”, “qual artigo de mulher que você adotou?”, porque isso é importante para mim, sabe?! Quando a gente fala que outras vozes se juntam a nós que a gente consegue, de fato, promover algumas transformações.

  • Caso alguém queira entrar em contato com você, como é possível contactá-la?

Podem me encontrar pelos sites do Investiga Menina do Laboratório de Pesquisa em Educação Química e Inclusão, mas também tem meu e-mail que é anna@ufg.br. Mas vocês me acham, joga meu nome nas redes sociais aí que vocês me acham, porque eu estou velhinha e quando a gente vai ficando velhinha vai aparecendo mais o nosso nome nas coisas. E eu queria dizer mais uma coisa. Quando a gente tem uma trajetória, como é o caso do Laboratório de Pesquisa em Educação Química e Inclusão, isso nunca acontece porque você faz atividades isoladas, nunca! É impossível fazer Ciência como uma atividade isolada e de um ser especial que teve um insight. Existe uma gama de estudantes, quase 100 estudantes, que estão hoje no laboratório, meninas, meninos, brancos, negros, brancas, negras, quilombolas, enfim, tem um monte de estudantes. Nós temos 15 bolsistas de Iniciação Científica da Educação Básica e temos sei lá quantos estudantes de doutorado que eu não poderia nem citar aqui porque seria injustiça minha porque eu vou acabar esquecendo o nome de alguém, mas que eu sou extremamente grata pela companhia de todas essas pessoas. Se eu não estivesse à frente, também aconteceria porque são pessoas extremamente comprometidas que têm feito a diferença por uma educação que promova de fato o antirracismo, a transformação social. É importante dizer isso, nossas trajetórias não são isoladas, a gente não vai fazer isso isoladamente é preciso construir um arcabouço de pessoas, isso também é muito importante, que a gente esteja disponível, e esse é um outro conselho para as meninas, a cooperar a trabalhar em grupo, a saber que essa ciência é uma construção humana, que essas pessoas que estão por trás da construção elas precisam ser reconhecidas.

LINKS:

  • Livro

– Trajetórias de descolonização da escola: o enfrentamento do racismo no ensino de Ciências e Tecnologias. Editora Nandyala. Disponível em: https://www.nandyalalivros.store/produto/491190/trajetorias-de-descolonizacao-da-escola-o-enfrentamento-do-racismo-no-ensino-de-ciencias-e-tecnologia. Acesso em: 15/03/2021.

  • Investiga Menina

– Canal do Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCBu7yZQiJAGOalLe57V_fLA

– Facebook: https://www.facebook.com/investigamenina

– Instagram: https://www.instagram.com/investigamenina/

  • Laboratório de Pesquisas em Educação Química e Inclusão (LPEQI)

– Site: https://lpeqi.quimica.ufg.br/

– Facebook: https://www.facebook.com/lpeqi.quimica.ufg.br

– Instagram: https://www.instagram.com/lpeqi_ciata_nta/


Referências:

BENITE, A. M. C.; BASTOS, M. A.; CAMARGO, M. J. R.; VARGAS, R. N.; LIMA, G. L. M.; BENITE, C. R. M. Ensino de Química e a Ciência de Matriz Africana: Uma Discussão sobre as Propriedades Metálicas. Revista Química Nova na Escola. vol. 39, n° 2, p. 131-141. São Paulo, 2017.

Mulheres negras na ciência: da construção de escolas a cartas de navegação no espaço

Figura 1 – Cientista negras brasileiras nomeadas em livro de passatempo “Meninas e Mulheres na Ciência. Fonte: UFPR

Fazer ciência é um processo lento e para um estudante virar cientista levam alguns anos de estudos e de investimentos na carreira que, em muitas vezes, saem do próprio bolso. A falta de investimento advindos de políticas públicas pode ser um dos principais desafios à ciência brasileira, deixando o país para trás em inovação e desestimulando estudantes a se tornarem cientistas.

O desafio pode ser ainda mais complexo se a cientista for mulher. Muitas mulheres têm uma dupla jornada: trabalham nos laboratórios, por exemplo, e se dedicam à rotina doméstica, muitas vezes com filhos para cuidar. Entre as mulheres, há as cientistas negras, que além do cenário já citado, enfrentam um racismo estrutural (ALMEIDA, 2019).

Conforme pesquisa realizada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no ano de 2015, apenas 12 mil mulheres estavam em pesquisa acadêmica nas áreas de tecnologia, engenharia e exatas, enquanto no mesmo cenário haviam 22,4 mil homens. Essa mesma pesquisa indica que as mulheres negras são apenas 26% das mulheres pesquisadoras do Brasil (CASEMIRO, 2018).

Em comemoração ao dia 11 de fevereiro, dias das mulheres negras na ciência, vamos comentar sobre quatro mulheres negras de muitas que conquistaram destaque na ciência.

Nascida após 25 anos do fim da escravidão no Brasil, Enedina Alves Marques (1913-1981) conseguiu estudar porque o patrão de seu pai queria uma companhia para a filha na escola e, por isso, Enedina conseguiu concluir boa parte dos seus estudos no Paraná. Ela ingressou no curso de engenharia em 1940 e se formou em 1945, tornando-se a primeira mulher a se formar em Engenharia Civil no Paraná e a primeira mulher negra do país a alcançar este feito. Trabalhou em várias obras com predominância masculina, mas mesmo assim, conseguiu colocar suas ideias em prática. Destacam-se as construções da Usina Capivari-Cachoeira e do Colégio Estadual do Paraná pelas quais Enedina foi responsável (ODARA, 2017).

Se Enedina foi a pioneira na engenharia, Sonia Guimarães foi precursora, por ser a primeira mulher negra com doutorado em Física no Brasil, em 1989. Sonia foi aprovada como professora no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) em 1993, em uma época que o próprio instituto não aceitava mulheres. Ela é especialista em Propriedades Eletrolíticas de Ligas Semicondutoras Crescidas Epitaxialmente e liderou em 2016 uma pesquisa nacional sobre o desenvolvimento de sensores de calor (BRITTO, 2020).

Atualmente há muitas notícias sobre robôs e fotos que versam sobre o planeta Marte; a origem dessa odisseia está no fato da ida do homem à Lua. Este feito histórico teve a contribuição das cientistas Katherine Johnson, Dorothy Vaughn e Mary Jackson, que inspiraram o filme “Estrelas Além do Tempo” (Hidden Figures). Katherine Johnson (1918-2020) entrou para NASA em 1953, e teve que conviver com o racismo estrutural interna e externamente. Katherine Johnson venceu esse obstáculo e seu talento com a matemática foi importante para orientar a trajetória do primeiro voo de um norte-americano no espaço, em 1959. Essa cientista também foi responsável pelos cálculos do lançamento do Projeto Mercury, em 1961. Além disso, ela projetou cartas de navegação, caso as naves tivessem pane elétrica, para se guiarem pelas estrelas. Em 1962, John Glenn, o primeiro homem a orbitar a Terra no mesmo ano, confiou à Katherine os cálculos finais da missão (RODRIGUES, 2020).

Quando se aborda a química é um dever falar de Alice Ball (1892-1916). Alice tinha apenas 23 anos quando propôs o tratamento eficaz contra a lepra, a atual hanseníase. Quem era acometido pela lepra deveria ficar em isolamento social, prática usada hoje para evitar o contágio pela Covid-19.

Na época um tratamento viável, mas doloroso ao paciente, era tomar óleo de Chaulmoogra. Este óleo era espesso e, por isso, causava muitas dores após a sua ingestão. Foi Alice que conseguiu transformar o óleo em um estrato injetável e, com isso, evitar ocasionar dores ao paciente. Alice morreu jovem, com 24 anos de idade (RUBIO; VALDÉS, 2018).

E aguardem! Uma cientista muito importante, a física Shirley Ann Jackson terá uma matéria especial do Jornal Momento Químico.

Quero, também, deixar registrado aqui, quatros nomes de cientistas negras indicadas pelos membros do instagram @aquilombar, especializado em educação das relações étnico-raciais nas ciências e tecnologias:

1 – Anita Canavarro Benite. É mestra e doutora em Ciências, licenciada e bacharel em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

2 – Bárbara Carine Soares Pinheiro. Possui graduação em Licenciatura em Química pela Universidade Federal da Bahia. Atualmente é professora Assistente I na Universidade Federal da Bahia.

3 – Katemari Diogo da Rosa. Graduada em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, mestra em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela Universidade Federal da Bahia, mestra em Science Education pelo Teachers College e doutora em Science Education pela Columbia University. Atualmente é professora adjunta da Universidade Federal da Bahia.

4 – Zélia Maria da Costa Ludwig. Com graduação em Bacharelado em Física pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1989) e em Licenciatura Plena em Física pela Universidade de São Paulo (2001), Mestrado (1995), Doutorado (1999), e Pós Doutoramento todos pela Universidade de São Paulo (2006).


Referências

ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Editora Jandaíra, 2019.

BRITTO, Débora. Pioneira, a física Sonia Guimarães abriu portas e quer ver mais mulheres negras na ciência. Marco Zero, 27 set. 2020. Disponível em: https://marcozero.org/pioneira-a-fisica-sonia-guimaraes-abriu-portas-e-quer-ver-mais-mulheres-negras-na-ciencia/. Acesso em: 22 fev. 2021.

CASEMIRO, Poliana. Primeira professora negra no ITA, Sônia Guimarães cobra igualdade para mulheres: ‘conservadorismo já não é mais capaz de nos parar’. G1. Rio de Janeiro, 18 julho 2018. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/primeira-professora-negra-no-ita-sonia-guimaraes-cobra-igualdade-para-mulheres-conservadorismo-ja-nao-e-mais-capaz-de-nos-parar.ghtml. Acesso em: 22 fev. 2021.

ODARA, Norma. 8 mulheres negras cientistas brasileiras que você precisa conhecer. Brasil de Fato. São Paulo, 25 julho 2017. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2017/07/25/8-mulheres-negras-cientistas-brasileiras-que-voce-precisa-conhecer. Acesso em: 22 fev. 2021.

RODRIGUES, Letícia. 5 Cientistas negras que mudaram a história da ciência. Galilleu. São Paulo, 17 mar. 2020. Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2020/03/5-cientistas-negras-que-mudaram-historia-da-ciencia.html. Acesso em: 22 fev. 2021.

RUBIO, Isabel; VALDÉS, Isabel. Alice Ball, pioneira no tratamento da hanseníase. El País, 02 mar. 2018. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/03/02/ciencia/1520007783_804680.html Acesso em: 22 fev. 2021.

Química Medicinal e Educação

A química medicinal caracteriza-se devido ao seu relevante aspecto multidisciplinar e, além disso, é um tema pouco trabalhado em sala de aula. Alguns assuntos, tais como medicamentos naturais e sintéticos, biotecnologia, moléculas bioativas, doenças infecciosas, dentre outros, despertam muita curiosidade nos alunos, mostrando-se uma ótima oportunidade de escolha para contextualização. As atividades metodológicas investigativas têm sido muito exploradas no sentido de melhorar o processo de aprendizagem (ZULIANI, 2006). Essa metodologia prioriza a experimentação e conduz o aluno a situações capazes de despertar a necessidade e o prazer pela descoberta do conhecimento, possibilitando a abordagem de conteúdos químicos de maneira contextualizada.

O espaço escolar em seus diferentes níveis também pode ser um meio de promover a conscientização e a educação em saúde, agregando saberes científicos aos conhecimentos advindos da tradição cultural no que diz respeito ao uso de remédios/medicamentos, bem como outros assuntos inerentes à química medicinal. Além disso, o ambiente escolar é capaz de desenvolver a criticidade, relacionando o conhecimento científico com as aplicações tecnológicas e suas implicações sociais, ambientais, políticas e econômicas. Para Vygotsky (2001), o papel que a escola assume em promover o desenvolvimento dos conceitos científicos − de forma autêntica e investigativa − é uma questão prática de grande importância. De forma complementar, Freire (2001) defende que, no ambiente escolar, não se deve separar o conhecimento científico dos fatos relacionados à realidade. Isso porque os conhecimentos aprendidos no espaço escolar podem fornecer argumentos baseados nas ciências que auxiliam a reflexão crítica da realidade necessária para mudanças de valores e atitudes.

Em relação à contextualização, os PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) consideram que “contextualizar o conteúdo que se quer ensinar significa, em primeiro lugar, assumir que todo conhecimento envolve uma relação entre sujeito e objeto” (BRASIL, 2000, p. 78). Nessa perspectiva, entende-se que o contexto do aluno deve ser um fator relevante que pode orientar a escolha de conteúdos e que seus conhecimentos prévios também devem ser considerados no processo ensino-aprendizagem.


Referências

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio): Bases Legais, 2000b. Parte I. Disponível em http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/blegais.pdf. Acesso em 30 set. 2020.

CAMARGO, Aline Souza de. A medicação e o ensino de química: uma proposta de educação para a saúde. 2013. 8 v. Dissertação (Mestrado) – Curso de Ensino de Ciências, Faculdade Unb Planaltina, Brasília-DF, 2013.

ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS, XI., 2017, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis-SC. A Química Medicinal como Ferramenta de Contextualização para o Ensino de Química no âmbito de um Clube de Ciências. 2017.

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